Revista Academus

Gestão participativa e a implementação do Projecto Político-Pedagógico: um estudo de caso na Escola 1º de Maio – Chitima

Por Esménia S. de Sousa A. Gregório (Universidade Católica de Moçambique), Orlando Eruzane Domingos (Universidade Licungo) · 08/06/2026

Metadados Académicos

Resumo
Apesar de a legislação educacional moçambicana estabelecer a gestão participativa como princípio orientador da administração escolar, observa-se, em muitas escolas, uma fraca participação efectiva da comunidade educativa na elaboração e implementação do Projecto Político-Pedagógico (PPP). Esta lacuna entre o quadro normativo e as práticas escolares motivou o presente estudo, que teve como objectivo analisar o contributo da gestão participativa na implementação do Projecto Político-Pedagógico na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, no Distrito de Cahora Bassa. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa exploratória de abordagem mista, envolvendo 23 participantes, entre os quais 20 professores e 3 membros da direcção da escola. A recolha de dados foi realizada por meio de questionários e entrevistas semiestruturadas. Os resultados demonstraram que a participação da comunidade escolar ocorre predominantemente através do Conselho de Escola e de reuniões periódicas de pais e encarregados de educação, embora essa participação se revele limitada no processo de planificação e monitoria das actividades do PPP. Os participantes reconheceram que a gestão participativa contribui para o acompanhamento das actividades escolares, melhoria da qualidade do ensino, fortalecimento da comunicação entre escola e comunidade e promoção do desenvolvimento institucional. Contudo, o estudo identificou obstáculos que comprometem a efectividade dessa participação, destacando-se a resistência à mudança, insuficiência de recursos financeiros, limitações logísticas e fraco conhecimento do PPP por parte de alguns membros da comunidade escolar. O estudo contribui para a compreensão das contradições existentes entre as políticas de democratização da gestão escolar e a sua operacionalização no contexto das escolas públicas moçambicanas, evidenciando a necessidade de mecanismos mais inclusivos e permanentes de participação comunitária na implementação do PPP.
Volume
7
Número
96
Palavras-chave
Gestão participativa, Projecto Político-Pedagógico, Conselho de Escola, Participação comunitária, Gestão escolar democrática
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Gestão participativa e a implementação do Projecto Político-Pedagógico: um estudo de caso na Escola 1º de Maio – Chitima

 

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Participatory Management and the Implementation of the Political-Pedagogical Project: A Case Study at 1º de Maio–Chitima Primary School

 

Abstract

Although Mozambican educational legislation establishes participatory management as a guiding principle of school administration, many schools still show limited effective participation of the educational community in the development and implementation of the Political-Pedagogical Project (PPP). This gap between the normative framework and school practices motivated the present study, which aimed to analyse the contribution of participatory management to the implementation of the Political-Pedagogical Project at 1º de Maio–Chitima Primary School, located in Cahora Bassa District. Methodologically, this is an exploratory study based on a mixed-methods approach, involving 23 participants, including 20 teachers and 3 members of the school administration. Data were collected through questionnaires and semi-structured interviews. The findings revealed that community participation occurs mainly through the School Council and periodic meetings with parents and guardians, although such participation remains limited in the planning and monitoring processes of PPP activities. Participants acknowledged that participatory management contributes to the monitoring of school activities, improvement of teaching quality, strengthening of communication between the school and the community, and promotion of institutional development. However, the study also identified obstacles that compromise the effectiveness of such participation, notably resistance to change, insufficient financial resources, logistical limitations, and limited knowledge of the PPP among some members of the school community. This study contributes to the understanding of the contradictions between policies aimed at democratising school management and their practical implementation in the context of Mozambican public schools, highlighting the need for more inclusive and permanent mechanisms for community participation in the implementation of the PPP.

Keywords: Participatory management; Political-Pedagogical Project; School Council; Community participation; Democratic school management.


1.  Introdução

O Projecto Político-Pedagógico (PPP) constitui um dos principais instrumentos de organização e orientação das práticas educativas, por definir a identidade da escola, os seus objectivos pedagógicos e as estratégias para a melhoria da qualidade de ensino (Lima, 2005). A sua implementação exige a participação articulada dos diferentes actores da comunidade escolar, incluindo gestores, professores, alunos, pais e encarregados de educação, tornando a gestão participativa um elemento central para a concretização efectiva das políticas educacionais. Nessa perspectiva, a gestão participativa é entendida como um modelo democrático de administração escolar que promove o diálogo, a partilha de responsabilidades e a tomada colectiva de decisões (Libâneo, 2013).

No contexto das reformas educacionais contemporâneas, marcadas pela necessidade de maior inclusão, transparência e melhoria da qualidade do ensino, a gestão participativa passou a ocupar lugar de destaque nas políticas públicas de educação. Em Moçambique, dispositivos normativos como o Diploma Ministerial nº 46/2008, de 14 de Maio, e o Plano Estratégico da Educação 2020–2029 reforçam a importância da participação da comunidade escolar na gestão das instituições de ensino, especialmente por meio do Conselho de Escola. Contudo, apesar desse enquadramento político e legal, a operacionalização da gestão participativa nas escolas públicas continua marcada por limitações relacionadas à reduzida participação da comunidade nos processos de planificação, implementação e monitoria do PPP.

Embora diversos estudos reconheçam a relevância da gestão participativa para o fortalecimento da escola democrática e para a melhoria do desempenho institucional (Libâneo, 2001; Saviani, 2001), observa-se que a literatura tem privilegiado abordagens mais normativas e descritivas sobre o tema, existindo ainda escassez de estudos empíricos que analisem, de forma crítica, como a participação da comunidade escolar influencia efectivamente a implementação do PPP no contexto das escolas públicas moçambicanas. Esta lacuna científica torna-se mais evidente em escolas localizadas em contextos periféricos e rurais, onde as dinâmicas de participação comunitária apresentam especificidades pouco exploradas pela investigação educacional.

É nesse quadro que se insere a realidade da Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, no Distrito de Cahora Bassa, onde, apesar da existência formal de mecanismos de gestão participativa, verifica-se uma participação limitada da comunidade escolar na definição, execução e acompanhamento do PPP. Em muitos casos, a actuação dos membros do Conselho de Escola restringe-se a encontros periódicos e actividades formais, sem uma intervenção efectiva nos processos estratégicos de desenvolvimento da escola. Tal situação evidencia uma contradição entre os princípios democráticos previstos nas políticas educacionais e as práticas concretas de gestão escolar.

Diante desse cenário, o presente estudo teve como objectivo analisar o contributo da gestão participativa na implementação do Projecto Político-Pedagógico na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima. Especificamente, procurou-se identificar as formas de envolvimento da comunidade escolar no PPP, compreender a importância da incorporação das perspectivas dos diferentes actores educativos, analisar os benefícios da gestão participativa e identificar os principais desafios que condicionam a sua efectividade no contexto escolar.

O estudo justifica-se pela sua relevância científica e social, na medida em que contribui para ampliar a compreensão sobre as limitações e potencialidades da gestão participativa nas escolas públicas moçambicanas, oferecendo subsídios para o fortalecimento de práticas democráticas de gestão escolar e para a melhoria dos processos de implementação do PPP. Além disso, os resultados poderão apoiar gestores escolares, formuladores de políticas educacionais e comunidades escolares na construção de mecanismos mais inclusivos e participativos de administração da escola.

 

2. Referencial Teórico

Nesta secção, são abordados os conceitos fundamentais da gestão participativa no contexto escolar. Discute-se também a função do Projecto Político-Pedagógico (PPP) e as diferentes formas de participação escolar. inter-relação entre esses conceitos é analisada, destacando como a gestão participativa pode promover uma educação mais democrática e inclusiva. Por fim, são apresentados resultados de pesquisas recentes que exploram os desafios e as potencialidades da gestão participativa na educação em Moçambique.

 

2.1 Gestão Participativa

A gestão participativa é um modelo de administração que valoriza o envolvimento activo de todos os membros de uma organização no processo decisório. No contexto escolar, isso inclui a participação de gestores, professores, funcionários, alunos e pais/encarregados de educação.

Segundo Baylão, Schettino e Cederj (2014), a gestão participativa é "um modelo de administração estruturado na confiança entre os profissionais de diferentes níveis hierárquicos" que promove a livre interacção visando atingir os objectivos da organização. Rego (1998, citado em Miguel, 2019) acrescenta que essa abordagem valoriza a capacidade das pessoas de tomar decisões e resolver problemas, melhorando a satisfação, motivação e desempenho.

No âmbito educacional, Luck (2016) destaca que a gestão participativa traz benefícios como maior engajamento e motivação da comunidade escolar, melhoria da comunicação, tomadas de decisão mais assertivas e desenvolvimento de liderança entre os participantes.

 

 

 

2.2 Projecto Político-Pedagógico

O Projecto Político-Pedagógico (PPP) é um documento que delineia os objectivos, directrizes e acções do processo educativo em uma escola. Vasconcellos (2014) o define como o plano global da instituição, resultante de um processo de planificação participativa contínua.

O PPP vai além de um simples documento burocrático. Freitas (2004) o caracteriza como um instrumento de gestão e compromisso político-pedagógico colectivo, que serve como referência nas lutas da escola. Ele sintectiza as condições, o diagnóstico e os compromissos assumidos pela instituição.

Gadotti (2001) enfatiza que o PPP implica rupturas com o presente e promessas para o futuro, transcendendo planos e actividades rotineiras. Ele representa a concretização de decisões tomadas colectivamente no processo educacional.

 

2.3 Participação na Escola

A participação no contexto escolar é essencial para garantir o sucesso do ambiente educativo, pois envolve a colaboração de diferentes atores na tomada de decisões. Silva e Silva (2014) identificam diversos tipos de participação que variam em grau de envolvimento e influência: a participação efectiva, que é caracterizada por um alto grau de envolvimento e impacto nas decisões; a participação parcial, que reflecte um nível moderado de envolvimento sem um papel activo nas decisões; a participação simbólica, que se resume a uma presença superficial, sem envolvimento real ou influência; e, por fim, a participação espóradica, que denota um envolvimento intermitente e inconsistente.

Tenório (2007, citado em Baylão, Schettino e Cederj, 2014) enfactiza que a participação deve ser vista como um processo de conquista, não apenas para a comunidade escolar, mas também para os profissionais e intelectuais envolvidos. Santos (2006) complementa essa perspectiva ao afirmar que o acto de participar reflecte a necessidade de partilha, que é fundamental para alcançar metas e objectivos comuns no ambiente educacional.

 

 

 

2.4 Relação entre os Principais Conceitos

A gestão participativa, o Projecto Político-Pedagógico (PPP) e a participação na escola são conceitos que formam a espinha dorsal de uma educação democrática e inclusiva. Libâneo (2004) ressalta que a gestão participativa envolve a corresponsabilidade e a colaboração de todos os actores educacionais no processo decisório, estabelecendo a base para um PPP que reflecte as necessidades e demandas reais da comunidade escolar. Segundo Paro (2001), essa forma de gestão cria um ambiente que favorece a democratização do espaço escolar, garantindo que as decisões pedagógicas sejam mais inclusivas e transparentes.

O PPP, conforme apontado por Veiga (2008), concretiza as intenções da gestão participativa ao sistematizar os objectivos educacionais e as estratégias pedagógicas, formalizando os mecanismos de participação da comunidade escolar. É o instrumento pelo qual se estabelece um compromisso colectivo em prol da qualidade educacional. Lück (2009) acrescenta que, quando o PPP é elaborado de forma colaborativa, a probabilidade de sua implementação com sucesso é significativamente maior, pois há maior alinhamento entre os interesses dos diversos actores escolares e os objetivos institucionais.

Já a participação escolar, analisada por Freire (1997), é o principal meio de concretização da gestão participativa e da construção do PPP. A participação pode assumir várias formas, como efectiva, parcial ou simbólica, conforme discutido por Demo (1996). A profundidade e a qualidade dessa participação são determinantes para o sucesso tanto da gestão participativa quanto da execução do PPP. Quando essa participação é activa e bem-estruturada, ocorre uma verdadeira transformação na dinâmica da escola, aumentando a responsabilização colectiva.

Dessa forma, a inter-relação entre os três conceitos gera um ciclo virtuoso. A gestão participativa favorece uma participação mais ampla e qualificada, que por sua vez resulta na elaboração de um PPP mais representativo e, consequentemente, na melhoria dos processos educacionais.

 

2.5 Resultados de Pesquisas Relevantes

Pesquisas recentes corroboram os desafios e as potencialidades da implementação desses conceitos no contexto moçambicano. O estudo de Nhangumbe e Ibraimo (2022) revelou que a participação da comunidade educativa, embora valorizada, é frequentemente moldada pelas direcções das escolas, resultando em um processo participativo que pode se tornar simbólico, em vez de efectivo. Isso indica que a gestão participativa, apesar de estar institucionalizada, ainda enfrenta desafios significativos para se tornar uma realidade prática.

Por sua vez, a pesquisa de Bango, Albuquerque e Chuva (2023) sobre os conselhos de escola em Moçambique indica que esses órgãos, muitas vezes, dão prioridade a questões administrativas, relegando as questões pedagógicas a segundo plano. Isso evidencia que, embora exista uma estrutura que deveria garantir a gestão participativa, a centralização do poder decisório impede uma verdadeira democratização no ambiente escolar. Esses estudos revelam que, embora o PPP e a gestão participativa sejam elementos essenciais para uma educação de qualidade, a implementação eficaz dessas ferramentas ainda é um desafio no contexto moçambicano, exigindo esforços contínuos para superar práticas centralizadoras e promover uma participação mais inclusiva e significativa.

 

3. Metodologia

A metodologia corresponde ao conjunto de procedimentos, técnicas e estratégias utilizadas para orientar a investigação científica de forma sistemática e rigorosa (Gil, 2008). Nesse sentido, o presente estudo foi delineado com o propósito de analisar o contributo da gestão participativa na implementação do Projecto Político-Pedagógico (PPP) na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, privilegiando uma abordagem metodológica capaz de compreender tanto os aspectos objectivos quanto as percepções dos actores escolares envolvidos no processo.

O estudo adoptou um desenho de pesquisa de natureza básica, com abordagem mista e objectivos exploratórios e descritivos. A opção pela abordagem mista justificou-se pela necessidade de combinar dados quantitativos, relacionados às percepções e níveis de participação dos actores escolares, com dados qualitativos, voltados à compreensão aprofundada das experiências, desafios e significados atribuídos à gestão participativa no contexto do PPP. Essa combinação permitiu maior consistência analítica e reforçou a triangulação dos dados, aumentando a fiabilidade dos resultados.

 

3.1 Tipo de pesquisa

Quanto à natureza, a pesquisa classifica-se como básica, por buscar ampliar a compreensão teórica sobre a gestão participativa e sua relação com a implementação do PPP no contexto escolar moçambicano, sem finalidade imediata de intervenção prática (Yin, 2018).

No que se refere à abordagem, o estudo adoptou uma metodologia mista, integrando procedimentos qualitativos e quantitativos. A componente quantitativa permitiu identificar tendências relacionadas ao envolvimento da comunidade escolar na gestão participativa, enquanto a componente qualitativa possibilitou analisar as percepções, experiências e desafios enfrentados pelos participantes no processo de implementação do PPP.

Relativamente aos objectivos, trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva. Exploratória, porque procurou aprofundar a compreensão sobre um fenómeno ainda pouco estudado no contexto das escolas públicas moçambicanas; e descritiva, por descrever as formas de participação da comunidade escolar, os benefícios percebidos e os obstáculos existentes na implementação do PPP (Gil, 2002).

O estudo assumiu a forma de estudo de caso, por concentrar-se na realidade específica da Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, permitindo uma análise contextualizada das dinâmicas de gestão participativa e da operacionalização do PPP.

 

3.2 Participantes e Critérios de Selecção.

            O universo da pesquisa foi constituído por 38 indivíduos, sendo 28 professores e 10 membros do Conselho de Escola e da direcção escolar. A amostra foi composta por 23 participantes, dos quais 20 eram professores e 3 membros da direcção da escola integrados ao Conselho de Escola.

A selecção dos participantes ocorreu por meio de amostragem não probabilística por conveniência, considerando a disponibilidade, acessibilidade e envolvimento directo dos sujeitos nas actividades relacionadas ao PPP. Como critérios de inclusão, consideraram-se: (i) ser professor efectivo da escola ou membro da direcção; (ii) possuir participação em actividades de gestão escolar ou do PPP; e (iii) aceitar participar voluntariamente da pesquisa. Foram excluídos participantes que se encontravam ausentes durante o período da recolha de dados ou que não demonstraram disponibilidade para colaborar com o estudo.

A escolha desses participantes justificou-se pelo facto de constituírem actores directamente envolvidos nos processos de gestão escolar e implementação do PPP, possuindo experiências relevantes para os objectivos da investigação.

 

3.3 Técnicas e Instrumentos de Recolha de Dados

A recolha de dados foi realizada por meio de questionários e entrevistas semi-estruturadas, permitindo a obtenção de informações complementares e a triangulação metodológica dos dados.

Os questionários foram aplicados aos 20 professores e continham questões fechadas e semiabertas relacionadas ao nível de participação da comunidade escolar, funcionamento do Conselho de Escola, benefícios da gestão participativa e desafios enfrentados na implementação do PPP. Este instrumento possibilitou a obtenção de dados quantitativos organizados posteriormente em tabelas e gráficos.

As entrevistas semi-estruturadas foram conduzidas com os 3 membros da direcção escolar. A escolha desse instrumento permitiu explorar, de forma aprofundada, as percepções, experiências e estratégias adoptadas pelos gestores escolares no processo de implementação do PPP. As entrevistas seguiram um roteiro previamente elaborado, alinhado aos objectivos da pesquisa, garantindo maior consistência na recolha das informações.

Para assegurar o rigor metodológico, os instrumentos foram previamente analisados quanto à clareza, pertinência e coerência com os objectivos do estudo.

 

3.4 Procedimentos de Análise de Dados

Os dados quantitativos foram analisados por meio de estatística descritiva simples, utilizando-se o Microsoft Excel para organização, sistematização e representação gráfica das informações obtidas nos questionários.

Os dados qualitativos provenientes das entrevistas foram analisados com base na técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2016). O processo analítico ocorreu em três etapas principais: (i) pré-análise, envolvendo a organização e leitura flutuante das entrevistas; (ii) exploração do material, mediante codificação das unidades de significado e categorização temática; e (iii) tratamento e interpretação dos resultados, relacionando os dados empíricos aos referenciais teóricos do estudo.

A codificação das falas permitiu identificar categorias analíticas relacionadas às formas de participação da comunidade escolar, benefícios da gestão participativa, limitações institucionais e desafios na implementação do PPP. Posteriormente, realizou-se a triangulação entre os dados quantitativos e qualitativos, possibilitando uma interpretação integrada dos resultados e reforçando a coerência interna da pesquisa.

Por fim, todos os procedimentos metodológicos foram conduzidos respeitando princípios éticos de investigação, assegurando a participação voluntária dos sujeitos, o anonimato das respostas e a confidencialidade das informações recolhidas.

 

4. Resultados e Discussão

O presente estudo analisou o contributo da gestão participativa na implementação do Projecto Político-Pedagógico (PPP) na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, procurando compreender as Formas de envolvimento da comunidade escolar no PPP, Importância da gestão participativa na implementação do PPP, contributo da gestão participativa na melhoria da qualidade da educação na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio-Chitima e, desafios e limitações da gestão participativa.

 

4.1 Formas de envolvimento da comunidade escolar no PPP

Os resultados do estudo sobre as principais formas de envolvimento da comunidade na gestão escolar na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio-Chitima mostram que a participação em reuniões de pais e comunidade é a forma mais prevalente, apontada por 65% dos participantes. Outras formas de envolvimento incluem sugestões por meio de caixas de reclamações (25%) e envolvimento em comissões ou grupos de trabalho para questões específicas (10%). Nenhum participante indicou nenhuma forma de participação (Gráfico 6).

A análise desses resultados pode ser triangulada com os fundamentos dos autores, especificamente com as formas de participação na escola. Silva e Silva (2014) categorizaram a participação em efectiva, parcial, simbólica e esporádica. A participação em reuniões de pais e comunidade pode ser considerada uma forma de participação efectiva, onde os participantes desempenham um papel activo na tomada de decisões e na operação quotidiana da escola. No entanto, é crucial ressaltar que outras formas de participação, como sugestões por meio de caixas de reclamações e envolvimento em comissões ou grupos de trabalho, também são significativas, contribuindo para diferentes níveis de envolvimento.

É importante reconhecer que a participação da comunidade na gestão escolar não se limita apenas aos pais. O envolvimento da comunidade como um todo, incluindo membros externos, é vital para o sucesso da escola. Essa perspectiva está alinhada com a ideia de Luck (2002), que destaca a gestão participativa como uma abordagem que vai além dos funcionários e inclui alunos, pais e outros membros da comunidade interessados na melhoria do processo pedagógico.

Quando consideramos o papel dos pais na gestão escolar, Epstein (1988) destaca áreas-chave, como programas educacionais direccionados aos pais, comunicação consistente com professores, envolvimento directo em actividades escolares, participação em actividades educacionais em casa e envolvimento nas decisões da escola. Esses elementos ressaltam a importância da diversidade nas formas de participação, abrangendo diferentes áreas da vida escolar e reflectindo a variedade de interesses e habilidades da comunidade.

A abordagem de Luck (2010) enfatizando a necessidade de envolver todos os pais, independentemente do desempenho dos alunos, destaca a importância da inclusividade na participação da comunidade. Isso reforça a ideia de que estratégias devem ser desenvolvidas para envolver activamente toda a comunidade escolar, criando um ambiente educacional mais inclusivo e eficaz.

Portanto, os resultados do estudo e os fundamentos dos autores destaca a importância de reconhecer e promover diversas formas de participação da comunidade na gestão escolar. A inclusividade e a variedade nas estratégias de envolvimento são essenciais para criar um ambiente educacional eficaz e colaborativo.

 

Gráfico 1-Principais formas de envolvimento da comunidade na gestão escolar

Fonte: (Autores, 2023)

 

 

 

4.2 Importância da gestão participativa na implementação do PPP

Os resultados obtidos na pesquisa sobre a importância da gestão participativa para o sucesso da escola revelam uma perspectiva positiva por parte da maioria dos participantes. No Gráfico 4, quando questionados sobre se acreditam que a gestão participativa é fundamental para o sucesso da escola, 80% dos participantes (16 respondentes) afirmaram que sim, enquanto 20% (quatro respondentes) indicaram que não.

Essa inclinação positiva em relação à gestão participativa encontra respaldo nos fundamentos apresentados por Pacheco (2022), que destaca a gestão participativa como um modelo democrático, onde funcionários e directores compartilham das decisões, promovendo o desenvolvimento de habilidades entre os colaboradores. O autor ressalta que esse processo estimula os funcionários a pensar, modificar e aprimorar suas práticas, alinhando-se com metas programadas para alcançar objectivos colectivos.

Os benefícios apontados por Pacheco (2022), como o aumento do comprometimento dos colaboradores, a optimização de recursos e a melhoria da satisfação no ambiente de trabalho, reflectem a importância da gestão participativa na promoção de uma cultura organizacional mais engajada e eficiente.

A discussão dos resultados pode ser triangulada com as estratégias sugeridas por Pacheco (2022) para garantir a implementação efectiva da gestão participativa. Compreender as percepções dos colaboradores, ser transparente com as informações, envolver a equipe na geração e implementação de ideias, conhecer a equipe e acompanhar as mudanças são práticas fundamentais para consolidar uma gestão participativa.

Portanto, a convergência entre os resultados da pesquisa e os fundamentos apresentados reforça a importância da gestão participativa como um elemento crucial para o sucesso da escola, destacando a necessidade de promover uma abordagem colaborativa e democrática na tomada de decisões e no desenvolvimento das práticas educacionais.

 

 

 

 

 

 

Gráfico 2-Importância da gestão participativa para o sucesso da escola

Fonte: (Autores, 2023)

 

4.3 Contributo da gestão participativa na melhoria da qualidade da educação na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio-Chitima

Quando submetidos a questão se acham que a gestão participativa contribui para uma melhor qualidade da educação na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio-Chitima, 19 participantes, equivalentes a 95% disseram que sim e um participante, correspondente a 5% disse que não. O gráfico 9 ilustra de forma detalhada os resultados.

Os resultados do estudo na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio-Chitima indicam que 95% dos participantes acreditam que a gestão participativa contribui para uma melhor qualidade da educação, enquanto 5% têm uma visão contrária. Esses resultados reflectem uma forte percepção positiva da comunidade escolar em relação à importância da gestão participativa na melhoria da qualidade da educação.

Essa visão positiva está em consonância com os fundamentos apresentados por Pacheco (2022), que destaca a gestão participativa como um componente fundamental da gestão democrática. De acordo com Pacheco, a gestão participativa envolve a tomada de decisões conjuntas entre funcionários e directores, permitindo o desenvolvimento de habilidades, o alinhamento de objectivos e o comprometimento dos colaboradores.

Os benefícios apontados por Pacheco (2022) para a gestão participativa incluem o aumento do comprometimento dos colaboradores, a economia de recursos e a melhoria da satisfação no ambiente de trabalho. Esses benefícios estão em sintonia com a percepção positiva da comunidade escolar, sugerindo que a participação activa no processo de gestão contribui de maneira significativa para a qualidade da educação.

Além disso, as sugestões de Pacheco (2022) sobre como garantir a implementação eficaz da gestão participativa, como compreender as opiniões dos colaboradores, ser mais aberto com as informações, envolver a equipe na geração de ideias e investir na comunicação, são estratégias que podem fortalecer ainda mais a gestão participativa na escola.

Portanto, os resultados indicam uma consistência entre as percepções da comunidade escolar e os fundamentos teóricos apresentados por Pacheco (2022). A gestão participativa, quando adequadamente implementada, não apenas é percebida como contribuinte para a melhoria da qualidade da educação, mas também traz benefícios como o aumento do comprometimento e a criação de um ambiente mais satisfatório no contexto escolar.

 

4.4 Desafios e limitações da gestão participativa

Quando questionados acerca dos principais desafios ou obstáculos para a eficaz implementação do Projecto Político-Pedagógico (PPP) ou Plano de Desenvolvimento na instituição escolar (conforme apresentado no Gráfico 3), constatou-se que 25% dos participantes, o que equivale a cinco indivíduos, destacaram a insuficiência de recursos financeiros como uma barreira significativa. Adicionalmente, 30% dos entrevistados, totalizando seis participantes, expressaram que a resistência à mudança e as complexidades na coordenação das acções representam desafios relevantes.

Outros 20%, equivalentes a quatro participantes, identificaram a falta de envolvimento da comunidade como um obstáculo central, enquanto 25%, ou seja, cinco respondentes, salientaram que a carência de capacitação e formação adequada dos professores configura-se como um desafio substancial.

Esses resultados dialogam com as reflexões de Bing (2023), que aponta que organizações acostumadas a modelos hierárquicos tendem a enfrentar dificuldades na adopção de práticas participativas. Contudo, os dados desta pesquisa sugerem que tais desafios não devem ser compreendidos apenas como problemas técnicos ou administrativos, mas também como reflexo de factores culturais e institucionais historicamente presentes no contexto escolar.

De modo geral, os resultados demonstram que a gestão participativa constitui um elemento relevante para a implementação do PPP, mas sua efectividade permanece condicionada à superação de desafios estruturais, culturais e institucionais que limitam a participação efectiva da comunidade escolar nos processos de gestão da escola.

Gráfico 3-Principais desafios ou obstáculos na implementação bem sucedida do PPP/PDE

Fonte: (Autores, 2023)

 

3. Conclusão

O presente estudo analisou o contributo da gestão participativa na implementação do Projecto Político-Pedagógico (PPP) na Escola Primária do 1º e 2º Grau 1º de Maio–Chitima, evidenciando que, embora a participação da comunidade escolar seja reconhecida como elemento fundamental para a gestão democrática da escola, sua operacionalização ainda ocorre de forma limitada e predominantemente formal.

Os resultados demonstraram que o Conselho de Escola constitui o principal mecanismo de participação da comunidade escolar, porém o envolvimento dos diferentes actores educativos permanece concentrado em reuniões pontuais, com reduzida intervenção nos processos de planificação, acompanhamento e avaliação do PPP. Verificou-se igualmente que a gestão participativa é percebida como importante para a melhoria da qualidade do ensino, fortalecimento da comunicação entre escola e comunidade e promoção do desenvolvimento institucional.

Entretanto, a efectividade dessa participação é condicionada por diversos desafios, entre os quais se destacam a resistência à mudança, insuficiência de recursos financeiros, dificuldades logísticas e limitado conhecimento do PPP por parte de alguns membros da comunidade escolar. Tais limitações revelam a existência de um distanciamento entre os princípios democráticos previstos nas políticas educacionais moçambicanas e as práticas concretas de gestão escolar.

Conclui-se, assim, que a gestão participativa possui potencial para fortalecer a implementação do PPP e promover uma escola mais democrática e inclusiva, desde que sejam criadas condições institucionais, formativas e organizacionais que favoreçam a participação efectiva da comunidade escolar nos processos decisórios.

O estudo contribui para ampliar a compreensão sobre os desafios da gestão participativa no contexto das escolas públicas moçambicanas, particularmente em contextos locais pouco explorados pela investigação educacional. Contudo, reconhece-se como limitação o facto de a pesquisa ter sido realizada numa única escola, o que restringe a generalização dos resultados.

Por fim, recomenda-se que futuras investigações explorem estratégias de fortalecimento da participação comunitária na gestão escolar, bem como o papel dos alunos nos processos de tomada de decisão e implementação do PPP em diferentes contextos educacionais.


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[1] Esménia Simião de Sousa Ambrósio Gregório é Mestre em Gestão e Administração Educacional

Universidade Católica de Moçambique. E-mail: esmeniasimiaos@gmail.com .

[2] Orlando Eruzane Domingos é Mestre em Educação/Psicologia Educacional Universidade Licungo. E-mail: orlandodomingos08@gmail.com .